O movimento estudantil parece estar apagado, muitos alegam alienação da juventude, mas apesar das dificuldades, ainda há jovens que persistem na luta
Essa realidade mostra que mesmo que se tenham novas armas para lutar, a ausência de um inimigo declarado dificulta a mobilização e certo distanciamento político persiste na juventude de hoje, que oferece mais discurso e menos ação e se manifesta de forma mais polarizada e setorizada em causas de interesse próprio. Como afirma a dentista e conselheira de saúde Maria Fernandes, “nos anos 60 e 70 o pensamento era pelo bem coletivo, amplo, e hoje os movimentos são focados em causas específicas pelas quais lutam apenas os diretamente interessados”.
O cientista político Michel Zaidan concorda, mas ressalta, “Houve uma redefinição da participação juvenil a partir da valorização do cotidiano, da micropolítica ou dos microespaços: a casa. o lazer, a profissão, a sexualidade”. Para Zaidan, o que ocorre é uma politização do espaço cotidiano e uma erotização da esfera política, que termina por confundir a ação pluralizada do jovem com alienação. “Mudou a política, mudou a forma de fazer política, mudaram as questões e a mentalidade estudantil” completa.
Mas mesmo diante de uma alteração de formato para a luta, se destaca a ausência de mobilização por parte de alguns estudantes, como afirma Cecília Cuentro, estudante de Ciências Sociais, “Eu acredito que os estudantes pouco fazem a respeito de reforma agrária, reforma política, quando fazem são ações pontuais e isso é a maioria, mas existe uma minoria que atua diretamente com essas temáticas e faz disso sua bandeira, como o MEPR (Movimento Estudantil Popular Revolucionário) o CEBRASPO (Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos) e a LCP (Liga dos Camponeses Pobres), que tentam desenvolver ações que tragam resultados positivos para melhorar a qualidade de vida das pessoas e transformar o mundo, denunciando crimes, cobrando punições, com ações mais efetivas e continuas”.
Porém, não é porque os jovens não se filiam a partidos ou não participam ativamente de causas sociais que sua ação em prol da sociedade é restrita, a participação em ONG´s pode provocar pequenas alterações pontuais de realidade, mas já representam a preocupação do jovem em lutar por causas e modificar realidades, como afirma a estudante de direito Thaís Moraes, “Além do voto consciente e responsável e da possibilidade de candidatura para cargos do Executivo e Legislativo, os jovens podem participar da política de muitas outras formas, inclusive não-partidárias. Numa democracia, ONGs têm um papel fundamental de diálogo com o governo e estão, muitas vezes, mais bem posicionadas a atingirem resultados concretos de forma mais eficaz, a depender da área de atuação”.
Além de ações voluntárias também a internet tem ampliado as margens para o movimento estudantil, como destaca Zaidan, ela é fundamental para a luta hoje, e há estudantes que concordam, mesmo destacando a fragilidade de restringir a participação política a fóruns, chats ou grupos de discussão online. “A internet serve como um importante instrumento auxiliar, de complementação da divulgação e da propaganda das atividades, mas jamais como forma de substituir o contato direto entre os jovens e suas entidades representativas.” destaca o atual diretor do DCE Rodrigo Dantas. Já Cecília, afirma: “Pra mim, discutir questões políticas é na rua, é na prática e com o povo. O que se tem muito hoje em dia é militante de internet, pessoas completamente afastadas da realidade social, que pouco se movem em prol de algo, mas ficam postando no facebook, mandando email disso ou daquilo, como se essa fosse a única via para protestar.”
A ação se dá de várias maneiras, mas o que se mostra importante é que os jovens não podem nem devem ser tachados de alienados, “o movimento estudantil não morreu e nem vai morrer” completa Zaidan. O que se vê é uma alteração nas suas manifestações. E é da juventude que vem essa resposta, há novas formas de atuar e novas maneiras de conscientização. Mas o que é válido pontuar é que ainda falta mobilização, mesmo diante da alteração de estrutura e de formato de luta, pois como frisa Rodrigo, “A cada dia, mais e mais jovens da periferia são aliciados para o tráfico de drogas e para a criminalidade. Como resolver estes problemas sem termos os jovens de nosso país mobilizados em prol das necessárias transformações sociais?”.
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O papel político da internet
A utilização da rede, capaz de auxiliar na mobilização, e fortemente utilizada para as marchas da Maconha, da Vadia e da Liberdade, sofre ainda questionamentos da própria juventude
Apesar da grande importância que a internet ganha como ferramenta de mobilização no século 21, pensar que a rede tem sido “bengala” para alguns jovens se sentirem atuantes é fonte de um questionamento simples: qual o papel da internet na mobilização social? Para alguns, é fundamental, e tem sido marcante por conseguir reunir pessoas de várias partes no debate e na atuação política e social, para outros é fonte de um novo tipo de militante: o militante de internet, que envia listas, e-mails e protestos online, mas não se faz presente na luta perto das pessoas.
Pensar a internet como arma positiva é, porém, o melhor caminho, a organização do Partido Pirata Brasileiro, por exemplo, se deve predominantemente à comunicação via internet entre pessoas interessadas em atuar politicamente sobre um prisma diferenciado e dessa maneira, o partido já está conseguindo se posicionar em mais de sete estados, inclusive no Recife.
Como afirma a estudante de direito Thaís Moraes, “A internet permite a união de pessoas de diversos países e condições sociais em torno de uma causa ou na promoção de foros de discussão, a um custo muito baixo. Permite, assim, o surgimento de uma forma totalmente nova de ativismo e o fortalecimento da democracia, capaz de realizar diversas conquistas, inimagináveis até então”.
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